
E
lá no alto das montanhas geladas havia uma terra de gigantes homens da pele
verde, cabelos amarelos e narizes vermelhos. Eles montavam em dragões, faziam
saladas com pés inteiros de bananeiras e adoravam beber água do mar (com peixes
e tudo).
Numa
nebulosa noite, numa bela casa no alto do vale mais florido, o menino sai de
seu quarto e caminha até a cama de pedra dos seus pais. “Papai, não consigo dormir, não tenho sono”. E o sábio homem deitou
o filho ao seu lado e disse: - Vou te contar uma história de um país que não
existe, de um país de mentirinha.
Imagine
um país belo, gigante e imponente, um dos seis países mais ricos do planeta. E
mesmo com tanta fartura, a imensa maioria de seus habitantes era pobre,
excluída e conformada com esta situação. O seu avô costumava dizer que a pior
pobreza não era a econômica, era pobreza de espírito. Acho que concordo com
ele, meu filho.
Seus
habitantes eram meio sádicos com suas próprias vidas, meio masoquistas, pois
deixavam que coiotes cuidassem de suas ovelhas, porcos cuidassem de suas frutas
e gatunos vigiassem suas jóias. Claro que não dava certo, problemas aconteciam
constantemente, mas mesmo assim eles continuavam aplaudindo e dando crédito
para gatunos, porcos e coiotes.
Eles
tinham particularidades culturais muito interessantes. Um dia, aquela gente
lançou uma festa chamada “favela chick”, com batidas tuxi tuxi e rimas de dar
dó. Com apelos sexuais que fariam estivadores criados no bordel passar
vergonha. Portanto, o que havia de tão fino, elegante, esnobe ou chick? Nada. A
música era popularesca, as danças vulgares e, muitas vezes, os festeiros
jogavam seu lixo no chão, falavam palavrões, brigavam, consumiam bebidas, drogas
e desciam até o chão. Apenas os corpos moldados em academias, os cortes de
cabelo e algumas roupas caras poderiam ser consideradas referenciais de
“chiqueza” para os de personalidade fraca, e nada mais. Embalagens sem nada
dentro. Viu como era criativo o povo de nossa história meu filho.
Eles
também batizaram uma música campestre de “universitária”. Nada contra o som que
vem do interior de cada lugar, pois lá mesmo haviam composições e artistas
fabulosos da moda de viola e das culturas típicas regionais, mas não era isso
que era consumido nas rádios, nas televisões e pelas pessoas. Eles gostavam era
da cultura kitsh, quanto mais rasteiro melhor.
“Lêlêlêlê”,
“tchê tchererê tchê tchê”, “pápápápá”, “eu quero tchú eu quero tchá”, “ai se eu
te pego ai ai”, eram notórios os vestígios do discurso “intelectual e
universitário” daquelas composições. Não eram poéticas, complexas, construtivas,
apresentavam elementos científicos ou discussões filosóficas para merecerem ser
chamadas de “universitárias”. Claro que não, passavam longe do que representa o
universo do ensino superior. Era uma música simples feita para pessoas simples,
com letras inocentes no começo que depois foram se embriagando com temáticas de
sexo, consumo e de desvalorização da mulher.
"Mas por que chamavam essa música
de universitária então papai"?
Alguns
homens que vendiam essa música resolveram tentar deixar ela mais legal, só na
aparência, para dar uma enganadinha e ganhar mais dinheiro. Aí espalharam que
era coisa dos ricos, dos descolados, dos inteligentes. Simplesmente jogaram purpurina
em cima de um carrinho velho para vendê-lo com um lançamento. Além de criativos
eram espertos e sabiam fazer dinheiro, meu filho.
Eles
também adoravam televisão, novelas, lutas sangrentas, programas de fofoca e
futebol. Nada de papos cabeça, discussões sérias para o futuro do país ou arte.
Apenas risos, mesmo que fosse rindo de suas próprias desgraças, o que acontecia
na maior parte do tempo. Qualquer ser vivo no universo choraria e se envergonharia
diante de sua ruína, mas eles riam e como riam... Faziam piadas, músicas
alegres, coreografias lascivas, gravavam reality shows e gargalhavam.
Afinal
de contas, quem precisa de educação, de cultura, de protesto e de igualdade
social? Eles precisavam é ser felizes, nem que fosse de mentirinha, nem que
morressem consumidos pelo nada, com a alma pequenininha e dilacerada por uma
existência desperdiçada com a ilusão. Mas, pelo menos, aparentando ser felizes
uns para os outros.
Todos
parecendo e fingindo, ninguém sendo.
“Ah não papai, essa sua história
é ridícula demais, quem acreditaria nisso? Nem eu que sou criança consigo
acreditar. Esse lugar não existiria nunca, jamais as pessoas seriam assim tão bobinhas.
E olha que eu acredito em gnomos, fadas, fantasmas, alienígenas, bicho papão e
até na seleção do Mano Meneses, mas essa sua mentira foi fraca demais. Nunca
que as pessoas seriam desse jeito, nunca”!
O
homem riu alto, sabia que nem mesmo uma criança seria capaz de acreditar em
tamanho absurdo que ele acabara de inventar. Então levantou e foi pegar três
rinocerontes na geladeira para preparar um lanche para os dois e esperar
o sono chegar.
Muito bom o texto!
ResponderExcluirParabéns Marcelo, pelo texto, há muito tempo que queria falar algo a respeito do assunto mas não tinha palavras adequadas. Finalmente li algo "nos náipe" do que gostaria de dizer, muito bom!
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