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terça-feira, 14 de abril de 2015

Conexões do enfaro

Tem músicas que tocaram demais, que já escutamos sua cota nesta encarnação. 
Nem todas, mas muitas delas são boas composições que tornaram-se saturadas pelo excesso de audições e exposições decorrentes de seu sucesso. Tem internacionais como Enter Sandman, Smells Like Teen Spirit, Jump, Smoke on the water, The Wall e por aí vai... São legais, mas não aguentamos mais escutar. Nos versos abaixo brincamos com algumas composições nacionais, neste mesmo sentido.              

               

Será só imaginação
Eu tava só, sozinho
Eu quis dizer, você não quis escutar
Depois daquela noite de festa
Encontrei uma barata na cozinha
O gato preto cruzou a estrada
É pau, é pedra, é o fim do caminho
Meia noite no meu quarto
Quando o segundo sol chegar
Vou pedir para você voltar

Quem me dera ser um peixe
Às vezes no silêncio da noite
Abordar navios mercantes
Dizem que sou louco por pensar assim
Prefiro ser essa metamorfose ambulante
Todo mundo está revendo o que nunca foi visto
Uma menina me falou
Devia ter amado mais
Bola na trave não altera o placar
Não posso ficar nem mais um minuto com você

Não me convidaram para esta festa pobre
Vamos fugir deste lugar baby
Eu quero levar uma vida moderninha
O bico do beija-flor beija a flor
Moro num país tropical
Vocês que fazem parte dessa massa
Amigo é coisa para se guardar do lado esquerdo do peito
Só depois de muito tempo fui entender aquele homem
Era um garoto que como eu
Levava uma vida sossegada

Quem te vê passar assim por mim...

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Num deslize



Você gosta das coisas juntas
Tudo em seu lugar
Outros sonham com um pescoço
Sob a sola dos seus pés
Você não perde tempo
Quer mais tempo para sorrir
E tem que controla o tempo
Para tudo controlar

Trituram vidas
Trituram sonhos
Com a mesma simplicidade
Que se morde uma maçã
Ande na trilha
Não perca o rumo
Ou num deslize 
O ceifador se torna você

Muitos dos que hoje sofrem
Farão sofrer amanhã
A vitória sempre é doce
E se cospe em quem fica para trás
Oprimido choro silencioso
Que se torna escuridão
Brilham estrelas falsas
Bate torto o coração

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

No calmo da alma



Pare um pouco
Respire
Você não era assim

O mundo já girou mais devagar
Lembra de passar a tarde inteirinha brincando no rio
Com os dedos murchos e a alma inflada de tantos sorrisos
Lembra como você se emocionava lendo na adolescência
E de escutar, escutar e escutar aquele bom disco de vinil
Muitos deles da antiga coleção de seu pai
Experimentando calmamente novas sonoridades
Descobrindo a música e descobrindo a si mesmo 

Não lemos mais por ler
Não assistimos mais filmes com a devida calma e dedicação
Tudo é rápido, urgente
Money, money, money
Aparências
Compromissos
Vivemos esgotados
Esquecemos de brincar

Crescemos e evoluímos
Mas perdemos algumas capacidades

Pare toda esta doença moderna rapaz
Pelo menos um pouco
Não corra tanto

Volte a sentir os pequenos prazeres
Os melhores prazeres
Os que te definem
Os que te tornam maior e mais feliz

O tempo é implacável
Atropela mesmo
E sem perceber
Te coloca de joelhos diante desta loucura
Desta sociedade inversa e sem sentido

A verdadeira felicidade está no vácuo
Na jornada e não na conquista
A felicidade está na lacuna da vida
Na harmonia com o universo

Somente neste lugar lento
No calmo da alma 
No colo da vida
É que nascem poemas, sonhos, idéias, revoluções...
Ali você se conhece
Ali você produz este monte de coisas que quase nunca te darão dinheiro
Mas que te tornarão absurdamente maior

Pare um pouco
Respire
Esqueça a agenda
Tire férias de ti
Para quem dar atenção?
Para o que dar atenção?
Distrações e iscas de sedução não faltam
Vícios e tecnologia
Escravidão moderna
Então pare
Pelo menos um pouco
Pare para não cair

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Palavreado


Pois é Lia... Começamos este texto há algum tempo na mesa de madeira ao ar livre.

A palavra instiga
A palavra confunde
A palavra se perde
A palavra é nula
A palavra é tudo
A palavra excita
A palavra apodera
A palavra conquista
A palavra mente
A palavra insulta
A palavra machuca
A palavra conforta
A palavra une
A palavra maldita põe tudo a perder

A palavra move o mundo
E a palavra mata também
Você é uma palavra?
E sem palavras você pode não ser ninguém

Amamos a palavra
Amamos com palavras
Cantamos com palavras
Lutamos diariamente com palavras

A palavra da escola ensina
A palavra do meliante assusta
A palavra do amigo alegra
A palavra do belo ofusca
A palavra do policial impõe
A palavra da ambição corrompe
A palavra de mãe acaricia
A palavra de pai espanta o bicho papão

A palavra do chefe não é dele...
                              ... é do capital
A palavra do boêmio não é dele...
                              ... é do Dionísio
A palavra do político não é dele
                             ... é do diabo
E a palavra do poeta pode nem rimar

Você é a palavra
Ou se esconde atrás das palavras?

Ok
Paremos por aqui
Façamos silêncio
Chega de palavreado
Cansei de pensar
De brincar com palavras
Desejo agora lambuzar a alma
Portanto
Com a boca e com minhas palavras
Te peço e te lasco um beijo

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Fétidos versos contemporâneos




O Luansinho é um cara bonitão
A Claudia uma garota legal
O velho Sílvio está sempre na moda
E você vive no esgoto
E fede feliz

O Luciano babou mais um ovo
E a vilã da novela voltou a apanhar
Tem até vampiro que anda de dia
E você vive no esgoto
E fede feliz

A Glórinha te ensinou com elegância peidar
Só no lepo lepo sem desafinar
Na academia de letras a Valeska vai entrar
E você vive no esgoto
E fede feliz

Você ama o paredão BBB
Tem mais de 1000 amigos virtuais
Faz selfies e selfies para publicar
E vive no esgoto
E fede feliz

Hilda Hilst, Paulo Freire, Chico Science, Raul Seixas, Mário Quintana e tantos magníficos...
... Todos morreram.
A revista Bundas nunca mais será impressa
O novo disco dos Mutantes não vendeu nada
Nenhum novo escritor ou poeta nacional fama ganhou
Não se gosta de textos, de ideias
Gostamos de rir
Rir da gente mesmo

Compre uma roupa, ajeite o cabelo, ligue a TV
Viva no esgoto
E feda feliz

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Eu sou o máximo


Eu sou o máximo
Eu amo vocês
Eu idolatro o mesmo Deus que vocês
Eu me adapto só para te agradar
E a multidão adorou

Vejam bem
Eu sou bonito e cheiro bem
Eu sou melhor do que vocês
Meu falatório é sublime
Eu mereço mais as estrelas
Disse o moço convicto
E a multidão acreditou

Eu posso te mostrar o caminho
Tenha coragem, venha comigo
E a multidão aplaudiu
Me ajudem, me sigam, me carreguem
E a multidão esvaziou os bolsos 
E a multidão obedeceu
E a multidão se fodeu

Morimundos


Hemorragia bipolar, trimiliques, pele mole, desastríce...
Fiquemos assim não meu bem
Pois tudo um dia vai ficar zen
Apenas segure firme a artrite de minha mão
Me dê o seu sorriso de escorbuto
E não tremamos com medo do bicho papão




quinta-feira, 17 de julho de 2014

Como venero-te



Ver-te-ei passeando de padiola e presentear-lhe-ei com um buquê de copo de leite.



P. S.  Não é dedicada a ninguém, apenas um insight sob a perspectiva da descoberta de uma palavra nova. Melhor deixar bem claro. rs

terça-feira, 15 de julho de 2014

Isso não é nada


Senti os lábios racharem com a geada dos primeiros raios de sol
Bati queixo com o minuano na nuca
Atravessei o cerrado com o sol quente na face
Senti o gosto do pó da secura
Mofei na aguaria
Mergulhei os pés no Araguaia e no Uruguai

Vivi muita coisa
Experimentei muita coisa
Vi muita coisa
E, de norte a sul, as coisas não mudam

Ignorância, ganância, corrupção, um pouco de tudo... 
Sou espancado todos os dias com a sua falta de sensibilidade
Existência mesquinha ou cega que leva tantos as lágrimas

Então não venha me  falar que isso não é nada
É sim!
Você desistiu cedo demais
Ou nunca nem ao menos tentou
Você saiu da casinha e se perdeu na floresta
E o bosque já não floresce mais.


quinta-feira, 12 de junho de 2014

A saga de Anibal II


Anibal decidiu chutar o balde
Daquela dúvida cósmica existencial
Daquela imensidão descabida e (des)sabida
Caiu nos livros, nos cursos, nas artes, nas pessoas, no mundo
Viajou... Efervesceu

Anibal evoluiu
Tirou os cadeados dos porões mentais
Libertou seus dragões
Ganhou respeito, ganhou oportunidades
Ganhou cabelos brancos
E já não sorri mais de qualquer piada social

Só que Anibal se  assustou
O mundo não é feito de pêssegos com nata
É complexo, confuso, perverso
Suas respostas geraram novas dúvidas
Suas dúvidas e descobertas geraram novas dores
Desconfortos cada vez maiores
O vazio não se dissipou

Anibal desejou que o mundo voltasse a ser apenas um lote para carpir
As ervas agora são muito mais daninhas
Como cantam os Ramones "Ignorância é felicidade"
Pode até ser
Não é Anibal?

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Na contramão do coração


Onde você se encontra?
Por que estamos aqui?
Qual o sentido de tudo isso?
Por que acordamos todos os dias e vagamos por aí?
Cada qual com seu conforto
Seus caprichos
Suas lutas
Sua escravidão
Raro é tomar os rumos da própria história
Cortar os laços da marionete
Gritar a própria verdade

Vale a pena?

Sobrevivemos
Contamos centavos
Comemos sobras
Ou deixamos restos para os outros
Passamos bem
Passamos mal
Não nos importamos
Iludimos a alma com todo o tipo de invencionice humana
A vida, a humanidade...
Passam longe
Alguns racionalizam
Questionam
Mas não se comem sonhos
Nos dias que passam e nos que virão

Dinheiro
Filosofia
Poder
Arte
Vaidade
Ciência
Sucesso
Espiritualidade
Natureza
Amor próprio
Amor ao próximo
O que é certo?
Onde aprumar o cavalo?
As portas da percepção apontam rumos que nem sempre se pode desfrutar
Pode doer só de pensar
Na alma e na carne
Evoluir a consciência pode condenar ao tormento
Mas é o único caminho

Esta é a verdadeira bravura
A que realmente importa
A desculpa é que somos imperfeitamente humanos
Somos fracos
Temos medo de arriscar
Ou não temos outra alternativa
Não ousamos tentar
Somos um planeta de covardes, acomodados, alienados e aproveitadores

Cá estamos novamente 
Calados do lado errado da rua 
Na contramão do coração 
Mas fazer o que?
O sistema morto é forte

Ninguém é feliz sozinho
Somos a migalha da migalha do cosmos
Nãos nos permitimos sentir o equilíbrio de tudo o que existe
Rompemos a harmonia
Fingimos naturalidade
Heterogêneo fingimento
Arrogância
Egoísmo
Necessidade
Preservação
Ilusão 

Não compreendemos que que somos parte de um todo
Que não somos nada e que somos tudo
O sistema vivo
Como compreender?
Como sentir?
No bom sentido

segunda-feira, 12 de maio de 2014

A saga de Anibal


Anibal estava perdido
Caminhos líquidos
Dias tortos
Mapas variados e inexatos
Parecia nada compreender
Só sentia uma pitada de vazio
Um leve sopro de tristeza
Esmorecia
Seu pai disse que algo precisa fazer
Atitude Anibal
Na sua idade eu já...
E Anibal foi capinar
Caçar um tanque de roupa para lavar
Na vida se virar
Fez calos
O couro endureceu
A pele queimou
Ficou mais sério
Menos inútil
Aprendeu coisas importantes
Anibal sobreviveu
Mas no fundo de sua alma 
Lá no fundinho de sua alma
Ainda falta um pouco de sol
Como se o mundo não fosse bem seu
Anibal não vive
Atravessa dias
As velhas angustias deixaram um gosto de metal na boca
Elas não estão expostas
Mas elas estão ali
Quase sem estar ali
Encrustadas como arraia no calcanhar

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Canções líricas de guerra e paz


Existe um mundo em sua crosta
De duros contos reais
Fazer sentido não importa
Dias passam sem luar
Sonhos guiados
Sexo digital
Enxada analógica
Olhar mecatrônico
Nanotecnodrogas
Engrenagem que gira
Caixões coloridos no quintal

Mas ela me convida para flutuar
Num vinil antigo voador
Flower eletric power
Feche os olhos
Permita-se 
60? 70? Se perder por aí
Películas, papiros, mentes em ebulição...
Deixo-me conduzir para fora do estômago da baleia
Pra dentro de puras ilusões
Sensações... Navegar
Respirar fundo sem ajuda de equipamentos


Ela interpreta seus dias
Com canções líricas de guerra e paz
A arte contamina o cinza
E da vida... 
A gente acaba querendo mais.





terça-feira, 29 de abril de 2014

Longe do sol quente de sua pele


Hora que não passa
Estou preso aqui
Longe do sol quente de sua pele
De sua consciência poética
Com pouca disciplina cósmica
Mas muita teoria existencial
Me faça fugir
Me eleve ao nirvana
Me salve de mim mesmo
De certa forma... 
Sendo justo
Só de pensar em ti já estou me salvando
Quero transpirar sorrisos através de teus olhos
Preciso de paz
Preciso de ti
Quero o mundo com medo da gente
Os teus sonhos me sequestraram de uma necessária loucura cruel

                                                                                                Para Lia.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Respeite


Respeite
Coloque-se no seu lugar
Eu sou melhor do que você
Eu me visto bem
Eu posso mais
Você não é nada
Uma multidão me segue
Ninguém escuta você
Eu demonstro mais fé
Eu sou uma boa pessoa aos olhos da cidade
Me desejam mais
Eu posso mais
Eu ganho mais
Eu mereço mais do que você 
Meu carro, minha roupa, meu circulo social, minha bebida
Meu cheiro é melhor
Meus filhos serão melhores que você
Meus filhos serão melhores que os teus
Você perdeu
Exala fracasso
Você é impuro
Não pertence a este mundo
Ao meu mundo
Pare de chorar
Pare de questionar
Venere-me
Respeite
Coloque-se no seu lugar

Nossa sociedade valoriza mais as posses do que a construção de uma coletividade humanizada. Nos sentimos acuados por ostentações, por futilidades e assistimos sonhos sendo dilacerados pela ganância e pela ignorância. Parabéns para você, para sua cegueira crítica e existencial, que contribui com a manutenção das lágrimas e da vergonha.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Flores na ferrovia


Não marque o passo em falso
Do lado errado do salão
Fantasmas rondam em silêncio
Não buscam a multidão
Você grita por piedade
E acorda o que engole sangue
Nem todo o final é feliz
Nem todo o sonho é bom

Sinta a lua do meio dia
Chore com gosto de sal
Engula suas angústias
Mantenha os trilhos sob o olhar
Tome cuidado por onde pisa
Não é hora de descansar
Há flores na ferrovia
E os escorpiões saem para tomar sol

Caminhe até os joelhos doerem
Depois caminhe um pouco mais
A estrada da vida é dura
Mas uma hora chega o final


sexta-feira, 21 de março de 2014

Um dia comum

















E assim
Do nada
Uma súbita vontade percorreu a espinha
E achou morada num pensamento
Num compartimento secreto da alma
Num singelo desejo
Daqueles que... Sabe...
... Causam adoráveis surpresas
E foi corroendo a manta de rotinas
Desmanchando o concreto do momento
Sem traumas
Sem percepções
Suavemente
Rompeu o destino auto programado da existência
Respirei fundo
E sem entender 
Ou tentar entender
Sentei na sombra da árvore que estava diante de meus olhos
Não era tão bela
Tão frondosa assim
Era uma árvore entre árvores
Senti a relva mal aparada entre os dedos do pé
e um vento acariciando a nuca
Era um dia de sol meio nublado
Não era tão belo
Tão convidativo assim
Um dia comum de sol
Quase sem sol...
                            ...mas estava tão bom.


Mate o dragão


Mate o dragão
Arranque os diamantes do calabouço
Esbanje
Arraste sua alma para o meio da confusão
Grite
Carcereiros, carniceiros, chorosos...
Eu venci!
EU VENCI!
Medos, desejos, sociedade, eu...
Mate o dragão
Mate o seu dragão
Vista a sua armadura e marche afinado
Um traje emprestado não lhe cai bem
E a jornada é longa
Não chore
Mate...




quarta-feira, 12 de março de 2014

Olhos de Gaya

Como não se apaixonar
Pelos olhos de Gaya
Pelo jeito de Gaya
Pelo gênio de Gaya

Deita tua cabeça em meu colo 
Derreta-me
Pois não aguento mais encarar 
Vossos olhos negros
Pidões
Implorando afagos de minhas mãos

Oh Gaya. Acaricio seu peito
Mas não morda meus pés
Sabe...
Mesmo quando me perturba
Com teus escândalos altas horas da madrugada
Não zango contigo
Pois acho que você faz bem para mim

Oh Gaya. Não lute... Não fuja pelas ruas
Não me ataque em seus tensos momentos
Não maltrate as visitas
Não seja traiçoeira
Sabe que mesmo não devendo
Te exalto com carne
E gosto do som de suas unhas no piso do chão